O capital (A Mercadoria)

MARX, Karl. O capital. Cap I – A Mercadoria

RESENHADO POR

Jackson Carneiro Viana (Economia/UFPI)

A MERCADORIA

O duplo caráter do trabalho materializado na Mercadoria

Primeiramente a mercadoria manifesta-se sob duas formas: valor-de-uso e valor-de-troca. Da mesma maneira o trabalho manifesta-se sob um duplo caráter: trabalho útil e trabalho abstrato. Marx foi o primeiro a analisar o duplo caráter do trabalho. O trabalho como valor, deixa de apresentar-se como trabalho qualitativamente distinto (trabalho útil), expressando-se em função de uma substância que lhe é comum: dispêndio de força de trabalho (trabalho abstrato).

Considere duas mercadorias: um casaco e 10 metros de linho. A primeira com o dobro de valor da segunda. Assim, 10 metros de linho = 1v, e o casaco = 2v. Ambas as mercadorias são valores-de-uso, portanto, resultado de trabalhos qualitativamente distintos, ou seja, trabalho útil manifestado sob sua forma: valor-de-uso. Dessa maneira, como valores-de-uso distintos, resultam do produto de trabalhos qualitativamente distintos. É devido a essa distinção que os valores-de-uso se contrapõem como mercadorias, pois “valores de uso idênticos não se trocam”. (p49). “Valores-de-uso não podem se opor como mercadorias, quando neles não estão inseridos trabalhos úteis qualitativamente distintos.” (p.49). Quanto maior a divisão social maior a proporção de mercadorias, ou seja, maior a quantidade de valores-de-uso distintos. Portanto, os valores-de-uso qualitativamente distintos só se contrapõem como mercadorias pela diferença qualitativa dos trabalhos úteis distintos que lhes deram origem, como condição para haver a troca.

O trabalho como criador de valores-de-uso (trabalho útil) é condição indispensável para a existência do homem, em qualquer forma de sociedade.  É através do trabalho útil que o homem vincula-se à natureza. Assim, o valor-de-uso é resultado da conjunção entre trabalho útil e matéria fornecida pela natureza.

 Quando afirmamos que um casaco = 2v, e que 10 metros de linho = 1v, estamos dizendo que o casaco vale duas vezes mais que o linho. Quando consideramos ambas as mercadorias como valor, essas coisas expressam em si igual substância: dispêndio de força de trabalho humano. Quando consideramos as particularidades dos casacos e linho, são valores-de-uso produtos de trabalhos qualitativamente distintos. Porém, “pondo-se de lado o desígnio da atividade produtiva e, em conseqüência, o caráter útil do trabalho, resta-lhe apenas ser um dispêndio de força humana de trabalho”. (p.51). Considera-se, portanto, o dispêndio de trabalho humano como o trabalho socialmente necessário para a produção dessas mercadorias, trabalho geral humano abstrato.

O valor é medido por dispêndio de força de trabalho simples, trabalho comum que em média qualquer homem sem educação especial é capaz de realizar. Porém, distinguem-se dois tipos de trabalho sob esse aspecto: trabalho simples médio e trabalho complexo. O primeiro é trabalho comum realizado por qualquer indivíduo sem instrução diferenciada. Já o segundo é trabalho potenciado, multiplicado, trabalho mais qualificado que se reduz à uma quantidade maior de trabalho simples. E essa redução de trabalho complexo a trabalho simples médio se dá por um processo social inconsciente, baseado no costume.

Assim, os trabalhos corporificados em casaco e linho expressam-se numa relação quantitativa manifestada sob a forma de valor. Quando se coloca de lado as particularidades de cada mercadoria estas passam a representar uma única e mesma qualidade comum, ser resultado do trabalho humano. Essa é a essência do valor. Portanto, o fato de o casaco possuir duas vezes mais valor que o linho é resultado da quantidade de trabalho corporificado na produção de cada mercadoria. O casaco corporifica duas vezes mais quantidade de trabalho geral, apresentando-se como duas vezes mais o valor do linho.

Com relação ao trabalho contido na mercadoria, do ponto de vista do valor-de-uso interessa qualitativamente como é esse trabalho e o que é este trabalho, já como valor interessa quantitativamente pela quantidade e duração de tempo.

Assim, o valor da mercadorias quando mantida constante sua produtividade varia em função da quantidade de trabalho acrescentada. Portanto, quanto mais trabalho maior o valor da mercadoria. Ao mesmo tempo, quando aumentamos a produtividade do trabalho contido aumentamos a riqueza geral da sociedade pelo acréscimo de valores de uso. Quanto maior a produtividade, maiores valores de uso e menor a quantidade de trabalho geral contida na mercadoria. Pois produtividade liga-se a trabalho concreto e útil, assim, não importa a produtividade trabalho que contêm a mesma quantidade de trabalho possuem o mesmo valor.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s