Apologia da História

BLOCH, Marc. Apologia da História

 

1. A escolha do Historiador

Os Sociólogos da Era Durkheimiana

  • Reservava a si tudo que lhes parece susceptível de análise racional.
  • Relegar à história a um cantinho das ciências do homem (Calabouço).
  • Julgada a fenômenos mais superficiais e fortuitos.

MARC BLOCH

  • Pretende uma significação mais ampla com a História
  • Sem fixar-se ao Indivíduo/sociedade ou a uma Crise Momentânea/Duradoura.
  • Desde seu surgimento a História mudou o seu conteúdo.
  • Mesmo fiel ao seu nome helênico, a História não será diferente daquela que escreveu Hecateu de Mileto.

q  Marc Bloch concentra-se nos problemas reais da pesquisa

  • Por isso não faz uma longa e rigorosa definição = “Que trabalhador de fé sério já se embaraçou com semelhantes artigos de fé?”. (p.51)
  • Será preciso uma definição de dicionário para definir os problemas da pesquisa?
  • A precisão desses problemas apenas deixa escapar o melhor do impulso intelectual.
  • “O grande perigo deles está em não definir tão cuidadosamente senão para melhor delimitar”.(p.52)

Face à imensa e confusa realidade:

  • O historiador é levado a recortar um ponto de aplicação particular.
  • Ao mesmo tempo, levado a fazer uma escolha que o distingue como historiador.
  • Uma escolha de historiador e não de biólogo, economista, etc.

2. A História e os Homens

q  A própria idéia de que o passado pode ser objeto da ciência é absurda.

  • Como fazer de fatos que tem como características apenas não serem contemporâneos matéria de estudo racional? Será possível uma história Total?

Historiadores Antigos: não se constrangiam nem um pouco

  • Preocupavam-se apenas em escrever, narrar acontecimentos desordenadamente.
  • Caracterizados apenas por terem ocorrido num mesmo momento.

q  A Linguagem Tradicionalista:

  • Conserva o nome de História a qualquer estudo na mudança da duração.
    • HISTÓRIA DOS VULCÕES
    • HISTÓRIA DA ASTRONOMIA
    • HISTORIA DA FÍSICA
  • Contudo, não pertence à história dos historiadores.
    • “Ou não lhe pertence na medida em que, talvez, se reuniriam às preocupações específicas da história que nos diz respeito” Þ  divisão de tarefas.

q  Um exemplo é melhor que muitos discursos:

  • Escrutar as origens das transformações.
  • Fenômeno seja qual for tem sua origem não apenas em sua exteriorização, mas é anterior ao momento.
    • “Age a física alguma vez sobre o social sem que sua ação seja preparada, ajudada ou permitida por outros fatores que não venham do homem?”.
  • Uma sociedade que remodela o solo Þ suas necessidades
    • Constitui um fato eminentemente histórico

Análise Histórica:

  • DE UM LADO: Þ Ponto de Sobreposição
    • Aliança de duas disciplinas
    • Indispensável para explicação
  • DE OUTRO LADO: Þ Ponto de Passagem
    • Constatar o fenômeno
    • Pôr seus efeitos na Balança

Objeto da História: Homens Þ mais que o singular: ciência da diversidade.

  • Por traz dos vestígios, artefatos, instituições:
    • São os homens que a história quer capturar: OGRO da LENDA

q  Será a uma Ciência? Ou Arte? Þ Bisavôs costumavam dissertar gravemente

  • Não há menos beleza numa equação matemática que numa frase correta.
  • Cada ciência tem sua estética de linguagem.
  • Fenômenos humanos são delicados Þ para penetrá-los é preciso buscar sua parte de poesia.
  • Para bem traduzi-los é preciso bem penetra-los.

3. O Tempo Histórico

História: ciência dos homens no tempo.

  • O historiador não respira apenas humano
  • A atmosfera de pensamento é uma categoria da duração

O Tempo:

  • Local onde se misturam os fenômenos como lugar de sua inteligibilidade
    • Radioatividade (tempo de transformação) Þ atomística
    • Rochas (tempo de transformação) Þ geologia
  • Atribuir ao fato seu lugar cronológico dentro das vissitudes sociais
    • Nenhum historiador se contentará em dizer quando determinado fato ocorreu.

Continuum X Perpétua Mudança Þ Dualidade, Dialética Temporal.

  • Dessa antítese provêm os problemas da pesquisa
  • Este problema questiona a Razão de ser de nosso trabalho
    • Em que medida devemos considerar o mais Antigo como necessário ou supérfluo para a compreensão do mais recente.

4. O Ídolo das Origens

q  O Ídolo da tribo dos historiadores: Þ obsessão pelas origens.

  • Saint-Beuve Þ “Espio e observo com curiosidade aquilo que começa”.
  • Renan Þ “Em todas as coisas humanas, as origens em primeiro lugar são dignas de estudo”.
  • A palavra é preocupante, pois equívoca.
    • Origem seria começo?
    • Pois a própria idéia de começo permanece singularmente fugaz, para a maioria das realidades históricas.

Origem seria Causa?

  • “Então não haveria mais dificuldades a não ser aquelas que, constantemente e sem dúvida mais ainda nas ciências humanas, são por natureza inerentes às investigações causais”.

q  Entre os Dois Sentidos: Þ ocorre uma contaminação não muito sentida

  • As origens são um começo que explica Þ Mircea Eliade.
  • Pior! Que basta para explicar.

Bloch compara o atraso das ciências humanas x naturais.

  • Dominadas pelo evolucionismo biológico
  • Afastamento das formas ancestrais.
  • O gosto pelas origens foi herança dos alemães. (Victor Cousin, Renan).

História Religiosa:

  • O estudo das origens forneceu o critério para o próprio valor das religiões.
  • É por essência uma religião histórica:
    • Domas principais se baseiam em acontecimentos.
    • Os primórdios da fé são seus fundamentos.
  • Muitas vezes a análise religiosa estendeu-se por outros campos onde sua legitimidade era mais contestável. (p.58)
    • Por isso, uma história baseada em nascimentos colocou-se a serviço da apreciação de valores.
    • O passado só foi empregado ativamente para melhor justificar ou condenar.
    • O Demônio das origens foi talvez apenas outro satânico inimigo da verdadeira História: mania de julgamento.
  • Catolicismo:
    • Uma coisa: Þ inquieta consciência que busca no catolicismo uma regra para si, definida cotidianamente.
    • Outra coisa: Þ é o historiador explicar o catolicismo do presente como um fato de observação.
    • O Indispensável é a correta percepção dos fenômenos religiosos atuais.
    • O conhecimento dos primórdios não é o bastante para explica-los.

Um nome que não mudou, permaneceu imutável? (Até que ponto)

  • Por mais intacta e duradoura uma tradição é preciso entender o que levou a sua manutenção.
  • Não interessa mais saber se Jesus foi ou não crucificado.
    • Entender o porque da Crença na Crucificação e na Ressurreição.
    • A crença se situa no nó onde se misturam e se engastam (encaixam) vários traços convergentes Þ tanto no social como no mental
  • A qualquer atividade humana a que seu estudo se associe, o mesmo erro sempre espreita o interprete (leitor): confundir uma filiação com uma explicação”.

Etimologistas (ilusão):

  • Acharam ter dito tudo quando, sobre o olhar do agora, apresentavam o mais antigo sentido de um vocábulo conhecido Þ  sem explicar esse deslizamento?
    • “boureau = pano” / “timbre = tambor” Þ primitivamente
  • Como se o papel de uma palavra não fosse como seu próprio passado
  • Comandado pelo seu estado contemporâneo Þ Reflexo Social do Momento.
  • Tornou-se possível porque os vocábulos, especializados por ofícios, distanciaram-se demais de sua antiga acepção.
    • Menor risco de erro ou confusão Þ “lacre / etiqueta gomada” = elo
  • Desespero dos Historiadores:
    • Os vocábulos adquirem conteúdos inteiramente novos sem que os homens se dêem conta.
      • Feudos / beneficium = adquirem novos conteúdos
      • Os homens não têm o hábito, a cada vez que mudam os costumes, mudar de vocabulário” (p.59).
      • O feudalismo surgiu de todo um “clima social”

Seignobs:

  • “Creio que as idéias revolucionárias do séc XVIII… provêm das idéias inglesas do XVII”.
  • Sempre restará o problema de saber por que a transmissão se operou na data indicada: nem mais cedo nem mais tarde.

 

Em suma:

  • Nunca se explica um fenômeno histórico fora de seu momento.
  • Uma verdade para qualquer etapa da evolução humana

 

  • “Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”
    • Por não incorporar essa máxima oriental, a história do passado por muitas vezes caiu em descrédito.

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