O VIAJANTE
CAPÍTULO 1 – O Peso do Caminho
Eram cinco da manhã quando em meio àquela pequena estrada surgiu uma figura pálida. Em meio ao barro da trilha, um homem dava o ar de sua presença. Pés descalços, aparência esquisita, trazendo nos traços de sua tês as marcas implacáveis de um tempo que não tem piedade de ninguém. Olhos profundos disfarçados pelos longos cabelos que insistiam em cobrir-lhe os olhos. Barbas longas que cintilavam uma luz prateada, adquirida pela longa experiência da vida. A sua longa marcha ditava o tom de seu estado: cansado, abatido pela longa viagem, faminto e com frio. Aos poucos a melodia dos pés batendo no barro da estrada quebrava seu ritmo, ao longe percebia que os ecos de seus pés eram acompanhados por outra melodia. Naquele instante, percebeu a presença de outro estranho, o ritmo dos pés deste novo estranho era diferenciado: leve e cheio de vida. Logo percebeu a presença do Senhor que lhe cruzou o caminho. Por um instante o viajante achou que sua sorte havia mudado, e a solidão de sua viagem finalmente terminara, mas as coisas mudam. Aquele Senhor que lhe cruzou o caminho tocou seu olhar por um leve instante, com a mesma frigidez com a qual se aproximou, desaparecendo da mesma maneira como surgiu: de horizonte a horizonte, carregando consigo a mesma melodia nos pés. Mais uma vez o viajante continuou a desfrutar da companhia de sua sombra, o silêncio mais uma se fez presente e aquela estrada parecia ainda maior. O tempo passara e o prateado dos cabelos mostrava-se ainda mais brilhante. Em sua frente apenas a estrada, e atrás de si somente sua sombra: fiel companheira do carrasco.
Olhar para o céu às vezes parecia amenizar a angústia da jornada, ou mesmo parecia relaxar o pensamento, enfim, se não melhorava ao menos permitia encontrar o consolo que vinha das estrelas. Os passos continuavam e a vida também seguia seu rumo, resumida naquela imensa estrada. Aos poucos o mesmo céu que parecia aliviar seu sofrimento, mostrava-se tão cruel quanto o tempo de sua vida. A chuva lançada sobre sua cabeça inundava tudo ao redor, logo a sede não era mais o grande problema, é certo que esta agora foi possível aliviar, e ainda armazenar para os duros dias que por virão. No entanto, a estrada de barro fez-se lama e seus pés nadavam diante do que era a estrada. Durante certo tempo o senhor continuou a seguir seu caminho, e que de fato era, mas a chuva mostrou-se ainda mais implacável obrigando-o a procurar abrigo. Em meio à angústia da procura, avistou ao longe uma casa, ou melhor, os restos do que um dia havia sido uma. Porém, o cansaço e a fadiga da jornada alteraram sua rota, a distância até a tal casa era razoável e preferiu abrigar-se em baixo de um cajuzeiro próximo. Imensa árvore que por sorte, quem sabe, colocou-se à sua disposição. O vento, que sempre dá o ar de sua presença no mais leve sinal de chuva, tornava aquele dia mais angustiante, pois o frio que a chuva trouxera trincava os dentes e o corpo do viajante, seus agasalhos não eram suficiente para lhe esquentar o corpo. Como se a vida não fosse tão dura, a noite já parecia dá os sinais de sua chegada. Enfim, a solidão, o frio, o silêncio, por que não o medo, eram a companhia mais fiel daquele homem. Aos poucos aquela imensa árvore já não era capaz de fornecer toda a proteção de que o viajante necessitava. Era preciso procurar um novo abrigo, quente e aconchegante, ou pelo menos um pouco mais seguro. Logo se lembrou da casa no meio do caminho, como também da chuva que o impediu de chegar antes que a noite caísse. O tempo corre de forma lenta, mas as cicatrizes de sua passagem logo suas marcas pelo corpo. Aquele senhor que o diga: a face sofrida pelo duro golpe do tempo e do cansaço revelava todo o sofrimento.
A estrada escura trazia consigo seu silêncio, rompido minuto a minuto pelo coral de insetos que marcavam sua presença do caminho até a velha casa. Finalmente o viajante poderia passar uma noite um pouco mais tranqüila. Aquele silêncio era a confirmação de que a presença de qualquer morador seria no mínimo impossível. A visão ainda que prejudicada pela escuridão, era quebrada pelo leve brilho da lua que naquele momento resolveu deixar de esconder-se atrás das nuvens, e mostrar toda sua força diante daquela imensa escuridão. Logo foi possível perceber que há muito tempo ninguém passava por ali. Todo o mato enraizado na sala parecia ser o único morador e todos os seus ramos espalhados por toda a casa confirmavam quem realmente era o inquilino daquela residência. As paredes mal se sustentavam, enfim, a estrada não era uma boa opção para passar a noite. Embora, não fosse o que havia imaginado acolhesse modestamente no canto de umas das velhas paredes e começou a tecer ali o que seria sua cama. O pouco agasalho que possuía não era capaz de espantar todo o frio, mas segurança que o local proporcionava psicologicamente servia de consolo àquele senhor. Não demorou muito e logo o sono veio, a lua parecia velar mais uma vez sua noite.
Da mesma maneira que a noite chegara mais uma vez se esvaía. Toda a escuridão trazida pela noite foi varrida pela implacável força do sol. Sua luz e sua imponência logo afastavam todo o leve sinal de escuridão. Mais uma vez os pássaros anunciavam o início do dia. O canto alegre daquela manhã não entusiasmou o velho viajante, quanto mais o tempo passava mais ele esfregava-se nos poucos agasalhos que possuía, o cansaço tomou conta de seu corpo passando a curtir o quão prazeroso era cada espreguiçada naqueles agasalhos. Por um momento sua angústia parecia haver desaparecido. Logo a realidade se fez presente e sua jornada o convidava a deixar a casa. Mas que jornada era essa? Talvez nem mesmo o viajante fosse capaz de responder. Durante muito tempo seu corpo vagou pela longa estrada em busca de algo que nunca foi capaz de decifrar. Mas era preciso continuar sua busca pelo nada. Sua felicidade dependia disso, seu corpo buscava respostas, e sua jornada era correr de encontro a tais respostas. Elevou mais uma vez seu corpo e pôs-se de pé. A cara amassada e os olhos ainda sonolentos insistiam em trazer o corpo novamente para o belo sono. Embora o sono tenha sido um dos melhores dos últimos dias, sonhar ainda não lhe era possível. Talvez porque o peso de carregar toda sua vida estrada à frente limite a capacidade de desejar dias melhores. Mesmo assim os pesadelos de vez em quando aterrorizavam a mente daquele viajante, quem sabe revelando angústias, medos e um pouco de sua realidade ainda desconhecida.
As gotículas de água ainda presas entre os ramos das arvores criavam uma falsa impressão de chuva, a leve cadência das gotas caindo revelavam que a chuva durante a noite marcara sua presença. Finalmente de pé, após o tempo necessário para arrumar as poucas coisas que compunham sua bagagem, o viajante retirou-se daquela casa, os passos batendo no barro da estrada não possuía mais a mesma melodia, a lama que ainda impregnava toda a estrada mudava o seu ritmo. Os passos eram milimetricamente calculados, um de cada vez para que o corpo não mergulhasse numa possa d’água à sua frente. Nesse balé do corpo foi mais uma vez construindo o seu caminho, mais uma vez estava de volta naquela velha estrada, mais uma vez de volta à sua velha rotina. O horizonte e a estrada se cruzavam como se o infinito fosse testemunha dessa união. O sol daquela manhã lambia sua testa lançando sua força sobre sua cabeça. Outra vez uma parada para o descanso, e novamente uma árvore lhe fez companhia. Sentado em baixo de uma laranjeira percebeu que não comera nada desde ontem, ou melhor, seu estômago fazia questão de manter-lo avisado. Infelizmente aquela laranjeira não possuía frutos. Sentou-se e ficou pensativo, sua jornada tornava-se cada vez mais difícil, mas o esforço lhe parecia valer a pena, se não nunca teria arriscado tão dura viagem. Durante sua parada em baixo da laranjeira pôs-se a observar. Dedicou boa parte do seu precioso tempo a contemplar o balé das formigas que por ele passava, seu ritmo sincronizado e cadenciado despertou certo interesse, a concentração o fez esquecer o mundo ao seu redor, mas logo percebeu que precisava seguir seu caminho, um estalo repentino o pôs novamente naquela fria estrada. Uma dança sincronizada e cadenciada. Resolveu voltar à estrada e decidiu carregar o peso do estômago mais uma vez consigo.
O estômago reclama mais uma vez. A massagem que sua mão fazia na barriga parecia não ter efeito nenhum sobre aquela amiga insistente: a fome. Olhar para o céu sempre aliviava o sofrimento, assim o fizera o viajante, que direcionou seu olhar para o alto, como se quisesse tocar alguma estrela. A estrada continuava e o horizonte confirmava a magnitude do caminho. O olhar para alto sempre vivificava aquele ritual, talvez porque os problemas diante daquela imensidão do céu ficassem minúsculos. Dava ao viajante certo consolo. Assim fizera mais uma vez, outra, e outra. Sempre que a angústia lhe tomava conta seu olhar direcionava-se para a primeira estrela acima de seus ombros. Mas os pés sempre ritmados dedicados a chegar ao fim do caminho impunham o peso dos passos.
Mais uma vez a melodia dos pés é quebrada por um eco que ao longe se fazia presente. Cada vez mais alto a nova melodia tornava-se mais nítida. O som dos pés batendo no barro da estrada novamente mudara seu tom, aos poucos novos pés faziam companhia àquelas pernas cansadas do velho viajante. A nova melodia do barro nos pés era totalmente diferente: bastante apressada, carregava consigo todo o ar de inocência. Agora mais perto, o viajante percebeu que se tratava de uma criança. Novamente os olhares se cruzaram e se afastaram novamente. Porém, este olhar não foi tão frio quanto o olhar do primeiro encontro, o antigo olhar daquele velho estranho. Dessa vez, antes de desaparecer no horizonte aquela criança parou no meio do caminho e pôs-se por certo tempo a observar aquela figura pálida, que levava nos pés a melodia da tristeza. Assim, a criança desapareceu no horizonte da mesma maneira como surgiu, levando consigo toda a leveza dos passos. Parecia que o mundo ao redor do senhor era quem viajava, e seu corpo era quem continuava imóvel todo esse tempo.
Mesmo assim, a estrada sempre o espera e a ela voltou, mantendo a rotina. Porém, aquela melodia volta ao encalço do viajante, logo percebe que o mesmo ritmo torna a lhe encontrar. Aquela criança resolveu voltar. Talvez aqueles olhares ao se cruzarem tenham despertado toda imensa curiosidade infantil. O viajante logo percebeu que estava sedo perseguido, mas aquela criança não lhe representava o menor perigo, o cruzamento dos olhares também lhe revelou tal sentimento. Surgiu no horizonte outra vez e foi em sua direção, finalmente um de frente ao outro, as palavras de fato não existiam. Como uma conversa entre mudos, mas com a linguagem do olhar. Nenhum eco de voz. Apenas o olhar gritava no olho um do outro. Por algum tempo permaneceram assim sem o menor sinal de vida, imóveis no meio da estrada e sob o testemunho da luz do sol. Nada de apresentações. A criança não precisou do menor sinal de verbos para entender que aquele senhor estava faminto. Sem mais conversa, a criança abriu sua pequena mochila e dela retirou um pano que parecia enrolar algo. Rápido desfez todo o emaranhado de panos e sacou dois pães. Suas pequenas mãos estendidas diante do viajante ordenavam que ele recebesse aquela comida. Sem titubear as mãos do senhor foram de encontro às mãos da criança e dela recebeu seu sustento. Outra vez olhou para o céu como se agradecesse às estrelas aquela comida, o ritual sempre foi respeitado. Novamente apenas os olhares ditavam o tom da conversa. Enfim, mais uma vez os caminhos se separavam e antes que o menino desaparecesse além do horizonte o viajante balbuciou um leve obrigado, levantando em seguida o olhar para céu e novamente seguindo seu caminho. Um novo ritmo cadenciava seus passos, o barro batendo nos pés agora murmurava uma nova melodia, um pouco mais alegre e menos angustiante. O estômago, como se soubesse, imediatamente impunha seu desejo. Os pães saciaram sua fome e o seu estômago resolveu dar um tempo em sua insistência.
Sempre que podia voltava o olhar para trás, forçando a cabeça a lembrar do inusitado encontro. O céu dessa vez não foi lembrado, a cabeça para trás, ainda que por poucos minutos, aliviava seu pensamento. Não se sabe se pela lembrança da comida agradável ou se pelo diálogo vago que a monotonia da estrada lhe proporcionou. Os pés à frente guiavam o caminho, mas cabeça encontrava-se atrás de si, remoendo lembranças ainda frescas na mente. Enfim, o caminho parecia menos duro aos poucos era possível perceber um leve esboço do que seria um sorriso no rosto do viajante. Leve, mas um sorriso, tímido, mas um sorriso. O que causou tanto encantamento naquele homem após seu encontro com aquele garoto? Somente sua mente era capaz de responder. E aquele sorriso, qual o motivo? A verdade é que os passos estavam renovados, por um momento alguma lembrança bateu na cabeça, pois seu olhar mais uma vez direcionou-se para o alto.
